21 de setembro de 2012

A caixinha

Pego os retalhos e coloco todos juntos naquela caixinha. O coração sofre, mas supera. Sempre supera. Os olhos perdem o horizonte às vezes, mas há sempre um céu para o qual olhar. Agora, pego a caixinha e guardo dentro da gaveta de meias, lá no fundo dela. Mal mexo nas meias, não junto os pares em bolinhas, como quase todo mundo. Minha gaveta de meias é meu mundo: desorganizado, uma confusão de pés e de histórias furadas. Talvez a caixinha organize a gaveta. Talvez não. Talvez eu queira organizar a gaveta, pra não fazer feio na frente da caixinha. Mas ela já me conhece, faz parte de mim. Dentro dela estão os papéis borrados de lágrimas: as cartas dela; estão as embalagens de bombons, as flores velhas e mortas como minha esperança, as ervas secas de um chá que nunca será feito. A caixinha tem o nosso cheiro, guarda nossos sabores, dói demais abri-la, como dói. Meus sentidos vão voltando a mim como um vendaval, rápidos como o soco de um pugilista e tão vorazes quanto. Fica aí, caixinha, fica. Guardada no fundo da minha bagunça, escondida da vista e do coração. Não me importune mais, já não bastam minhas meias...

Um comentário:

Anônimo disse...

great