12 de março de 2011

Hora certa


Anteriormente na saga de Zara, o caçador de anjos:



“Isso também é muito triste! Nós vamos embora deste mundo do mesmo jeito que viemos. Trabalhamos tanto, tentando pegar o vento, e o que é que ganhamos com isso? O que ganhamos é passar a vida na escuridão e na tristeza, preocupados, doentes e amargurados.” (Livro de Eclesiastes, 5. 16-17)


O segurança de dois metros de altura sacou o convite de minha mão e me revistou com apalpadas e uma passada de detector de metais dos pés à cabeça. Fez um sinal com a mão, e finalmente entrei na convenção.
Logo me direcionei ao balcão de informações e tive que enfrentar mais alguns minutos de fila até uma atendente jovem — até demais, parecia ter treze anos — me dizer boa tarde e perguntar o que eu desejava.
— Queria confirmar meu lugar na palestra do Boris Farrell.
— Nome, por favor.
— Zara.
— Zara... — Ela falou, esperando eu continuar com sobrenomes.
— Só Zara. Você não vai achar outro.
— É verdade, senhor — Ela disse depois de poucas teclas apertadas — O seu lugar no salão C é o 2F. Sua presença está confirmada.
Agradeci e comecei a vagar pelos infindáveis estandes daquele espaço gigantesco. Aquela era a 16ª. Feira do Entretenimento, pela primeira vez na capital da Inglaterra. O galpão colossal abrigava representantes de editoras, gravadoras, produtoras e todo tipo de empresa que tivesse alguma ligação com o lazer, além de milhares de pessoas ávidas por novidades e entupidas de ideias e rascunhos para tentar ganhar a vida nesses estandes. Era, de fato, muito interessante, mas eu não estava lá para isso. Talvez com o Vale-Terra eu tenha mais tempo para ler trechos de livros do Dan Brown e ver curta-metragens da Pixar.
A palestra de Boris só começaria às seis, então ainda tinha meia hora de ociosidade até ter o primeiro contato com ele. Boris, ou melhor, Gaar, não seria tão difícil para levar — nem todos os anjos são selvagens como Esmirna —, só que eu teria que gastar todos os argumentos possíveis para convencê-lo de forma amigável. Ele é um gênio cultuado aqui na Terra, pode derrubar qualquer um só com palavras.
Espero que não me derrube.


Meia hora passa rápido.
Já estava acomodado na poltrona 2F do salão C seis horas em ponto, com uma garrafa de água em uma mão e as minhas espinhas na outra. Fiz bem em escurecer a cor dos meus olhos e infestar meu rosto de acne — assim eu passo mais despercebido pelas pessoas —, mas meu rosto pinicava só de pensar que nele residiam várias bolotas vermelhas com células mortas dentro.
Enfim, Boris surgiu com um sorriso escondido pelo bigode grisalho, acenou para a pequena plateia de trezentos plebeus e sentou seus noventa e cinco quilos em uma poltrona azul gigantesca. O palco da palestra foi feito para parecer com uma daquelas casas de sitcoms, cheias de coras e móveis da tendência. No fundo havia um telão onde Boris mostraria seu próximo projeto de série para a Warner Bros. pela primeira vez ao público. Era tudo muito colorido e divertido: Três pessoas foram selecionadas para sentar no sofá do lado oposto à poltrona e fazer duas perguntas cada a Boris. Não vou negar que ele se saiu bem até demais como terráqueo, até eu admiro seu bom humor e desenvoltura ao responder às questões intrincadas sobre o futuro de todas as mídias possíveis e imagináveis.
Os oitenta minutos de bate-papo — pois Boris não se comportava como se estivesse em uma palestra, e sim, em um jantar de Ação de Graças — me fizeram repensar por um momento na missão que tinha. Regras são regras, mas Gaar era mais digno de ser um homem do que muita gente que nasceu de um útero. No entanto, eu tinha que completar a tarefa e chamei um dos seguranças que iria escoltá-lo até o carro. Ele só ergueu os ombros em resposta, e disse a ele para avisar Boris de que  Zara quer falar com ele.
De algum modo muito impressionante, o segurança avisou Boris e ele voltou para o palco, me procurando. Levantei a mão direita e ele finalmente me avistou. Nós, anjos, não nos reconhecemos pelo que vemos — claro, posso virar uma garota albina de um metro e meio agora mesmo se quiser —, mas pelo que sentimos. Nós somos pura energia, e podemos sentir a energia singular de cada anjo, como um perfume ou uma nota musical.
(Só que Gaar já está há trinta e seis anos como humano, então a levantada de braço deu uma força ao velho.)
Boris mandou um segurança — o mesmo da erguida de braço — me mostrar o caminho até seu carro. Sentei no banco do carona e ele, sem frescuras, pegou o volante.
— Quer me levar, né Zara? — Gaar dizia brincalhão, atento nas ruas cinzentas de Londres.
— Querer eu não quero, mas tenho.
— Tudo bem. Está com pressa?
— Nenhuma. Você sabe que tenho todo o tempo do mundo.
— Assim como eu — E abriu um sorriso que me cativou a imitá-lo.
Poucos minutos se passaram até chegarmos em um dos casarões de Gaar, estacionarmos em sua garagem de cinco carros e subirmos para sua sala de estar. Sentei em um sofá de couro branco e ele em uma poltrona do mesmo material. Sentia que estava tendo um déjà vu, revendo Boris Farrell na palestra. Bati na minha testa cheia de acne e esqueci essa bobeira, esperando que ele falasse algo.
— Quer chá, café, suco, água... ?
— Não quero nada, obrigado.
— Nada mesmo? Não é todo dia que você vem a uma casa como essa, não?
Ele tinha razão. Gaar tinha uma residência tão bonita e ornamentada que me fez pensar se Deus não havia dado alguns palpites para a decoração. Quadros valiosos enfeitavam as paredes cáqui do local, me fazendo delirar nas cores e formas indecifráveis deles.
— Não acredito que você conseguiu tudo isso só escrevendo e dirigindo séries, Gaar...
— Nem eu — Falou, puxando uma garrafa de uísque de um compartimento logo abaixo da poltrona e enchendo dois copos. É incrível como ricos têm o costume de ter vários compartimentos secretos na casa — Tome, Zara. Um uísque faz bem.
Hesitei, mas peguei o copo e dei um gole naquele líquido ocre que queimava a garganta. Odiava beber drinques alcoólicos, mas eu precisava levar Gaar o mais rápido possível e ele estava enrolando demais, então resolvi agradá-lo. Seria mais fácil.
— Nem deu tempo de sentir saudades de você — Ele disse, e logo previ que um discurso estava tomando forma — O tempo na Terra passa muito mais rápido do que em nossos campos verdes e tediosos. A vida aqui demanda muito mais percepção, astúcia, esperteza... — Pausa para o uísque — ...São poucos os que conseguem dormir em paz depois do sol se pôr. O mundo continua girando mesmo quando queremos calma. Nunca temos paz na Terra.
— Nem mesmo você?
— Eu tenho tudo, Zara. Uma mulher linda que me ama, dois filhos que já planejam netos para mim, uma conta bancária mais do que satisfatória e um punhado de amigos para jogar mini-golfe nos momentos de tédio. Sou clamado por qualquer um que se interesse um palmo pela televisão, e sou considerado a personificação da mídia. Sou a galinha dos ovos de ouro com bigode, em resumo. Só não tenho paz.
De repente, os olhos vivos de Gaar se transformaram em dois buracos negros que sugaram toda sua luz. Seu rosto ficou abatido, e o Boris de momentos antes era só uma lembrança. Tive calafrios só de ver essa mudança brusca.
— Tenho medo, Zara. Medo desse planeta cair em outra Depressão e eu acordar com a conta zerada. Medo de encontrar meus filhos largados em um beco sujo cheirando cocaína e me mandando tomar naquele lugar. Medo do fracasso das minhas séries, de ficar no ostracismo. Medo da velhice e da falta de juventude. É só isso que penso quando minha cabeça encosta no travesseiro.
Gaar deu mais um gole no uísque e apertou os olhos para evitar que lágrimas caíssem. Era difícil vê-lo nessa situação.
— É como se eu tivesse ficado todo esse tempo aqui pra comprar algo... que não tem preço — Ele dizia entre soluços — A paz não precisa de dinheiro, de fama, de propriedades. Ela é auto-suficiente, só precisa de si mesma. Eu só posso ter paz quando tiver paz, entende?
— Sim. — Mentira.
— Não, você não entendeu.
(Filho da mãe.)
— A paz surge quando você simplesmente não se preocupa com nada. A paz é o desapego. A paz sabe que o mundo gira e que ninguém pode fazer nada contra isso. Ela te invade quando você menos espera, e vai embora sem você perceber que esteve lá. Está entendendo agora?
— Sim. — E é verdade.
— Eu criei muito com o que me preocupar, e essa é a vida que escolhi. Não tenho como voltar. Se você não viesse hoje eu estaria fadado a muitos anos de amargura na hora de dormir. Acho que finalmente aprendi a lição.
Gaar levantou, estendeu os braços e assim ficou, como um Cristo Redentor fora de forma.
— Sabe, Gaar... — Eu dizia, retirando a adaga da cintura —Pensei que eu teria que te dar um sermão para te levar, só que você fez isso por mim...
— Eu estava esperando por você há anos — Ele choramingava, com os olhos distantes e mirando o teto. Ou talvez o céu — Você ou qualquer um que viesse me buscar. Eu não sei mais como voltar ao céu por conta própria, nem me sinto digno disso. Gastei tantos anos humanos para reconhecer que... no fim, Deus tinha razão.
— Ele sempre tem — Confirmei com uma comoção gigantesca querendo imobilizar meu braço — Mas isso é óbvio, Gaar. Ninguém pode levar nada dessa vida.
— O que eu ainda acho uma pena. Até logo, Zara.
— Ei, espere — Lembrei de algo crucial aos quarenta e cinco minutos do segundo tempo — Como eu vou te levar se você tem mulher, filhos...? Isso não vai dar algum pro...
— Já conversei com Gina — Gaar disse no mais calmo dos tons de voz — Ela sabe o que eu realmente sou, e vai dizer a todos que foi um aneurisma. Aí é só deixar o caixão fechado. Combinamos isso no caso de alguma, hum... saída de emergência.
— Como essa?
— Com certeza — Ele juntou as mãos e retirou do dedo anelar esquerdo sua aliança de casamento. Beijou-a, deixou a jóia em cima da poltrona e voltou à posição de Cristo Redentor — Vá logo com isso, senão serei obrigado a terminar o roteiro da minha próxima série.
E enfiei a adaga em seu pescoço, vendo-o se desfazer em plumas. Tratei de desvanecer o mais rápido possível.




Assim como Gaar, também aprendi uma lição. Olhei para as pessoas que andavam desconfiadas e apressadas pelas ruas de Londres e pensei como nada disso adiantaria na morte. Pensei como nada adianta na morte. A morte é algo distante de mim, mas não consigo deixar de pensar na ideia do Vale-Terra. E seu gostar mesmo daqui? Querer uma casa, um emprego, uma família? Não faço ideia de como será meu futuro, e Deus é metódico demais para me dar qualquer palhinha sobre ele.
No entanto, para todos os efeitos, agora sei que a vida na Terra é questão de momento. A vida é curta, a vida não espera. A vida pertence a nós; a morte pertence a Deus. E tanto uma como outra sempre vêm na hora certa.
Sempre.


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Voltei mais cedo do que pensei que voltaria.
Melhor assim.

3 comentários:

Lucy Van Pelt * disse...

Me fez pensar sobre a minha vida. Sobre o que procuro, qual a razão de viver... amei.

www.thinkingaboutnothin.blogspot.com

@mrpitanga disse...

Muuuuuuito obrigado pelo elogio, amiga! :D

@laismoltene disse...

Esse texto me trouxe conclusões necessárias para esse momento de minha vida...é, nada é por acaso.